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O enigma de um jardim




Senti... Vento que me tocava por inteiro, senti... me tocava e vinha dos quatro cantos, e do canto veio o som, o som do ar que passava trazia o aroma do campo disfarçado em sorrisos mil. Lentamente a luz acariciava as meninas dos olhos que despertas, se maravilharam. Eu via, estava no horizonte onde o mar não alcança, nunca havia visto tal calma, tão plana e bela. Tulipas, gardênias, orquídeas, margaridas, todas com suas exuberantes e sinuosas curvas me olhavam, para meu espanto andavam e também sorriam. Não quis entender, apenas admirei ao receber sorrisos perfumados de vidas que se vivem sem você. Comecei a caminhar pela relva, tão verde que refletia brilho onipotente de um suave sol matutino, essas planícies tinham algo, era bom... mas tinham algo a me dizer. Uma estranha ave pousou sobre meu ombro. Carregava fogo em suas penas, sua cauda trazia um rastro de passado, os pés levavam os ventos de quatro cantos e olhos de sabedoria. Virei meu olhar para tal ave e fiquei deslumbrado, ela no entanto, me ignorava. Após algum tempo de contemplação silenciosa ela dirigiu algumas palavras, não a mim, mas a um ser que ela chamava de tato. Com uma voz autoritária dizia a tato que já era hora. Após essa única fala partiu em toda sua exuberância carregando os quatro ventos consigo em direção ao sol. Tal cena cativava meu olhar, até que subitamente percebi que segurava algo em minha mão, que desde o princípio estava lá... comecei a sentir sua forma, era uma forma fria, reta e angular. Vi que era um caule, tal qual caule de rosa, porém verde-azulado, tão frio quanto suas formas retas, sua haste era haste de flor cortada, arrancada, A flor era o mais peculiar, pois tinha pétalas angulares, fortes e formava um exato cubo, o cubo parecia ser parte de algo, aquele cubo verde-florescente que não me explicava o que era. Afastei meu olhar para ver melhor, e percebi que o cubo era apenas um ponto de uma grande interrogação que brotava do caule... O silencio tomou conta de mim, os quatro ventos não estavam mais lá, todas as flores sorridentes desapareceram. amedrontado sentei-me a relva com uma lágrima ao rosto, abraçando minhas pernas como um feto, um braço esticado com a flor-pergunta e um olhar cabisbaixo, direcionado a tal flor, flor que só me fazia pensar em porquês, quandos e comos. A ave voltara cruzando o céu. Ela, novamente em meu ombro, dessa vez com seus olhos profundos, jade e esmeralda fitados em mim pediu para que eu sussurrasse um desejo. Assim fiz, e ela partiu. Quando ela partiu percebi que há muito não se via relva aonde estava, e que eu era só no vazio. Olhei para minha única companhia... SWOSH... A flor criara enormes espinhos, traspassaram minha mão, apesar da dor, eu ainda a mantinha comigo, pois era minha companhia, era meu valor, era mais valioso do que tudo que eu havia passado em minha vida. Ela começou a murchar... percebi... soltei... Ela saiu flutuando em direção a uma farta lua que havia substituído o sol, trazendo consigo seu cobertor de estrelas e planetas... Observava a flor flutuar, observava o sangue em minhas mãos escorrer, não para fora, mas para dentro, tingindo meu braço por inteiro de vermelho. Caí por terra, lembrei do meu ultimo desejo... lembrei-me de tudo, em meu ultimo suspiro vi a flor-pergunta se tornar a mais bela flor ao alcançar a lua, e a vi feliz, e vi a lua feliz, pereci em um sorriso. Tornei-me terra naquele deserto frio, o tempo passou, pereci sem lápide, sem epitáfio. Marcando minha sepultura um único lírio, um belo lírio do deserto que brotara das entranhas de minha carne consumada pelo deserto, era um lírio puro, com toda pureza de seu branco, exceto por uma, uma pétala era vermelha.

GUSTAVO ELIAS

Sexta feira 2 de julho de 2010

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